O SENTIDO É UM ASTRONAUTA SOLITÁRIO

Na intenção de dar início a nossa série de nome “Expediente”, a qual em primeira instância servirá para apresentar a equipe da Trem, escrevi este pequeno para tentar dar um panorama de como funciona a parte escritora do meu confuso cérebro.

Considerando o corpo como primeira e última prisão, me vejo colocado em cárcere. Pagando dia após dia o preço por ser humano e sentir de maneiras diferentes a confluência do todo em parcelas do mundo.

Se minhas penitencias pudessem ser projetadas no plano real, elas viriam em forma de imagens surrealistas ou, talvez, em notas do plano econômico real. Economicamente ou artisticamente com um valor flutuante para cada outra penitencia, para cada outra imagem ou nota. Dependente de fatores externos, economias, produções e produtos empático-financeiros. Fatores tão multiplos que o único sentido a ser retirado seria a falta de sentido fixo a longo ou até curto prazo.

Da mesma forma que exotéricos ousam dizer que os diferentes  cristais, lapis-lazulis ou turmalinas negras, pedras no geral, é que escolhem seus donos, digo que a arte me escolheu um de seus. Ou eu, como pedra a ser lapidada, ou prisioneiro a quebrar pedras, escolhi a arte para labutar com minhas habilidades nada especiais, aos meus olhos que acompanharam boa parte dos meus eus.

Dentre todas as pessoas que já conheci, uma das minhas favoritas sou eu. Não por me considerar alguém melhor do que outros, mas por permitir a esses outros o entendimento de ser um eterno estar e não só ser.  Por dar-me a liberdade, mesmo que na corrente cósmica do equilíbrio natural, de ir por um caminho ausente de palavras e imagens. Sendo guiado por Lucia de Siracusa ou  por mim mesmo ao repousar toda noite.

Ao olhar em minha volta com os sentidos do mundo, degusto os símbolos que se decifram, os que esperam ser decifrados e os que nunca serão decifrados. Símbolos que se dividem, mas são uno. Sinto a descamação das palavras, consideradas como portos de lógica para quem acredita na precisão do verbal, enquanto sou levado por uma nuvem de pássaros brancos que aguçam o sentir. Sentir que se faz tão meu quanto de Kawabata, ou de Kikuji, durante uma cerimonia do chá.

Em tempos pragmáticos e utilitaristas onde palavras são disparos que trazem a imagem de perfuração e vento através de um buraco reverberando som antigo de vazio, vejo no quebrar das formas que se misturam em cores o sentir que me constrói. Prefiro produzir o que é afirmado como relativo a me aventurar no achar ser objetivo o que digo.

Em um mundo onde para uma conversa é necessário um motivo, um tema que encaixe no contexto ou um cigarro, prefiro falar na língua dos micro gestos que não caminham para uma intenção final de consumação. Vivendo o infinito que existe entre um e dois, antes de passar para o número inteiro. Suprimindo dizeres diários e fazendo deles um símbolo que representa o que os signos deveriam ter estado ou significado. Escolhendo a sombra dos significantes ao invés da miragem dos significados,

Não quero que fique a imagem de que sou contra as palavras. Gosto de usá-las para criar minha própria proteção. Tecendo-as de forma labirintítica com cuidado espinhoso para evitar interessados-no-fim, brotando, talvez, a sensação poética de um eterno (re)significar. Repousando no topo da torre, tal como Aurora, a espera do momento em que um gesto valerá mais do que o feitiço colocado. Sendo esse feitiço a necessidade de utilidade e a existência de sentido para além da total falta de sentido,

Espero que meu trabalho faça sentir, tal como procuro sentir cada tempo, espaço, gesto, som, forma e cor. Que ele faça entender que a ordem nada mais é do que o caos organizado e que o caos nada mais é do que a assincronia de múltiplas e singulares, ordens. Espero que o conteúdo que tratemos na trem lhe passe a sensação de que ainda existe muito a trilhar.

Gabriel Brenner L. C. Rodrigues, editor-chefe da vir-a-ser Revista Trem

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