CAROLINA DE JESUS: DO ESQUECIMENTO À LUTA.

No ano de 2020 Carolina de Jesus completaria 105 anos. Se Carolina estivesse viva qual seria o seu olhar sobre o Brasil de hoje?  Acho eu, que quando escrevemos, depois das opiniões daqueles primeiros leitores, ficamos com o peito aquecido pela ideia de que futuras gerações, tão melhores que nós, terão contato com nossas palavras. Não é fácil pensar que escreveremos a um futuro que permaneceu com as mesmas questões – e são nessas questões que nos agarramos à denominação de “clássico”. Se Carolina, viva, em carne e osso, olhasse ao seu redor, ainda veria muito do que viveu na pele e expôs em palavras pelos seus diários.

Carolina de Jesus é mineira, de Sacramento. Nasceu em 1914, um ano antes do que surgiu o Menelick, o primeiro jornal composto por negros no Brasil. Criado pelo poeta negro Deocleciano Nascimento e que hoje, em 2º ato, é representado em memória e luta pela Revista O Menelick[1], que indico muito a todos vocês.

Ontem, o Brasil comemorou a vitória de uma mulher negra em um reality show, muitos falaram sobre como a vitória em rede nacional foi uma representação da reparação social que todos os negros merecem nesse país. Me veio a mente a escritora brasileira Carolina de Jesus, aclamada mundialmente pelos seus escritos, duas biografias publicadas – uma em quadrinho[2] e outra em prosa[3], e que, enquanto viva, sofreu com o esquecimento.

O seu livro mais famoso “Quarto de Despejo” foi leitura obrigatória em vários vestibulares este ano. Carolina conquista um novo espaço. O livro é um diário que fala sobre a a vida na favela do Canindé e como Carolina sobrevive sendo uma catadora de lixo com desejos literários incontroláveis e que a levam para outros lugares. Em 1960 o livro ficou a frente de vários outros clássicos internacionais. Carolina de Jesus foi requisitada pelo seu testemunho sobre a vida de uma mulher negra na favela. Ela entorpece o leitor com as dores, tristezas e violências que passou.

Carolina ocupou e alcançou espaços, suas palavras, seus relatos, seu livro foi um dos maiores best-sellers do Brasil, e ainda assim foi sumindo da memória brasileira. E é justamente esse esquecimento que justifica a luta negra nesse país. O tempo todo tentam apagar as conquistas, ou diminuí-las a insiginificantes. Mas sempre teremos Carolinas, Thelmas, Marieles, Conceições por aí, levantando o braço com o punho fechado, fincando os pés em lugares proíbidos por preconceito mas seus por direito.

Carolina é um clássico. Carolina é luta.

[1] para conhecer a revista O Menelick 2º Ato acesse o site: http://www.omenelick2ato.com/

[2] A biografia em quadrinhos de Carolina de Jesus, sendo os autores João Pinheiro e Sirlene Barbosa foi publicada pela editora Veneta e pode ser adquirida no site https://veneta.com.br/produto/carolina/

[3] A biografia de Carolina de Jesus em prosa foi escrita pelo jornalista Tom Farias e publicada pela editora Malê. Adquira pelo site https://www.editoramale.com/product-page/carolina-uma-biografia

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