RESPOSTAS POSSÍVEIS PARA POSSÍVEIS QUESTÕES PANDÊMICAS

Talvez uma das melhores coisas sobre a ficção científica é poder produzir realidades tangíveis que refletem diferenças entre o real e o literal e que carregam em si possibilidades que dizem mais sobre nós do que os personagens. Nessa sobreposição entre a realidade do leitor e a ficção criada pelo autor, somos levados a questionar posições, certezas e preconceitos contidos dentro da obra e de nós mesmos. A ficção científica sempre foi uma forma literária de testar os limites da civilização humana. E nesse momento, em que esses mesmos limites estão sendo testados em nossas casas, ruas e hospitais, nada melhor do que mergulharmos nos limites do possível, tanto possíveis futuros quanto possíveis presentes, que se abrem como um leque a frente da humanidade, revelando o tanto quanto a nossa imaginação permite.

Muitas dessas histórias encontram-se em realidades inconfundívelmente nossas. No livro de contos “Eu, Robô”[1], Isaac Asimov revela através de histórias do século XXI, como a humanidade aprende a viver com robôs e como esses influenciam as vidas de seus criadores de forma indelével e inseparável. Ainda nesse sentido, em um outro conto, “O Homem Bicentenário”[2], Asimov constrói uma visão do futuro, em um processo dialético de criatura e criação, em que um robô se torna humano, paulatinamente deixando de ser um robô no sentido clássico. Primeiro ganhando direitos de seu próprio trabalho, depois substituindo peças de seu corpo por peças robótico-orgânicas, criando não só um corpo orgânico para ele como também transplantando esses mesmos órgãos para aqueles que precisam. Em uma dramática cena de conclusão em um filme homônimo, o personagem, interpretado por Robin Williams, ganha os direitos de ser considerado um ser humano, resultado do conflito central da história em uma síntese que ainda deixa dúvidas: Onde um robô começa e um humano termina? Até onde ou até quando faz sentido essa separação?

 Em uma outra realidade parecida, a de “Carbono Alterado”[3], em uma versão da Terra apenas algumas centenas de anos na nossa frente, chegaríamos a um momento de nossa evolução, em que por um desenvolvimento tecnológico, toda a consciência de uma pessoa é armazenada na base de sua cabeça, existindo corpos permutáveis, referidos como “capas”, que podem ser vendidos e comprados, e departamentos de polícia que lidam apenas com “dano orgânico”, não mais com homicídios. Neste mundo, visivelmente desigual, cyberpunk e extremamente violento, só os ricos têm dinheiro para comprar capas de sua escolha, e os pobres ficam com as que restam. A trama nos suplica a pergunta: Em um mundo onde os humanos não são mais definidos pelos seus corpos, serão definidos pelo o que?

Se os nossos corpos não são o que somos então, talvez, nos resta aquilo que há atrás de nossos olhos – a nossa própria mente. No clássico, “Matadouro Cinco”[4], Vonnegut explica como um homem, após o trauma causado por viver o bombardeio aliado da cidade de Dresden em 1945, se desprende do tempo e vive não em uma linearidade, caminhando inexoravelmente até sua morte, mas pulando alternadamente e sem controle por episódios diversos da própria vida, embaralhando o próprio sentido coeso do viver de seu protagonista. Impossibilitado de formar as narrativas que uma mente sã constrói e que, consequentemente, dão sentido para nossas vidas, o protagonista vaga no espaço-tempo, eternamente atônito, seja nos melhores ou piores momentos de sua vida. Como entender uma mente tão refratada que nem se quer experimenta o tempo como nós o entendemos?

Philip K. Dick, no conto “Minority Report”[5], tece uma trama sobre um detetive de um departamento que prende pessoas por crimes que elas ainda não cometeram baseado na clarividência de três mutantes. Quando o próprio detetive é acusado de um crime e precisa fugir para que possa provar a sua inocência, ele corre atrás dos relatórios dos mutantes e ao ler um relatório conflitante com os outros dois, justamente o relatório minoritário, decide cometer o homicídio que foi previsto, selando o seu destino previsto como assassino. Ao conhecer mais sobre seu destino o detetive percebe quão inexorável os seu atos são, e decide fazê-lo ao entender que suas ações seriam o “mal menor.” Ao enxergarmos um erro aparentemente inevitável no nosso próprio futuro, será que não temos escolhas para detê-lo?

O empenhado doutor (atualmente, doutora) de “Doctor Who”[6], tira essa dilação temporal de letra. Apesar de reencarnar várias vezes (atualmente em sua décima terceira), a personagem mantém um senso de si (apesar de sempre mudar de personalidade e até sotaque) vagando pelo espaço e tempo com a mesma missão desde sua primeira encarnação: ajudar aqueles que precisam de sua ajuda. Sua experiência de vida, longe de danificada ou embaralhada por cada encarnação, é enriquecida com novas perspectivas e novos ajudantes que encontra em suas aventuras. Transitando entre passado, presente e futuro, (por vezes encontrando si mesmo em outra encarnação) a doutora nos mostra que nossas diferenças, mesmo as nossas próprias, definem quem justamente somos.

No mundo cosmopolita e futurista de “Estação Perdido”[7], em meio a humanos e dezenas de outras raças, as diferenças gritantes entre espécies nos levam a uma outra diferença mais fundamental. Uma das personagens principais namora uma mulher khepri, um ser que tem a cabeça de um besouro mas o corpo de uma mulher humana. Os khepri são um povo em diáspora, muitas vezes vivendo no mundo de Bas-Lag em favelas com poucas lembranças de seu mundo natal ou mesmo de sua religião e cultura. A aparente animalização dos fictícios khepri nos leva a perguntar sobre os efeitos do epistemicídio e a bestialização de entes reais.

Usamos a ficção para continuarmos a debater sobre as perguntas essenciais da condição humana. Afinal, o que define o ser humano? Suas semelhanças? Suas diferenças? Seus corpos? Sua experiência sensorial? Seus atos? Mas a alegria da ficção científica, e da vida, é a jornada, e não o destino. Cada experiência contribui para a conversa como um todo, e a conversa como um todo reflete e é refletida nas questões do presente, em busca de soluções futuras. Não há nada mais humano do que refletir sobre essas possibilidades e entender através desses experimentos mentais nossos triunfos e nossas limitações a fim de buscar na imaginação futuros melhores entre nós.

Ora, por que falar de ficção científica em um momento como esse? Em um momento que chegamos a estimados duzentos e cinquenta e oito mil mortos por uma pandemia deflagrada a menos de seis meses, será esse texto um apelo ao primeiro estágio do luto – a negação, a fuga da realidade? Não, a reflexão do que nos torna humanos, é justamente o contrário, é a afirmação dos valores e práticas que nos tornam o que somos e possibilitará o que seremos.

Cada país, baseado na sua realidade concreta, luta (ou não) contra a pandemia. Esse caleidoscópio de realidades possíveis reflete e refrata nas relações desses países entre si produzindo ora antagonismos, ora colaborações. Essas aproximações e afastamentos resultam em episódios emblemáticos com pontos fulcrais, por exemplo, ventiladores pulmonares: de países que os doaram para contribuir à sobrevivência de cidadãos estrangeiros; países que proibiram a exportação deles para utilizá-los só para os seus; ou países que roubaram cargas deles, comprados e enviados por outros países, em um ato desesperado de egoísmo e negação do outro.

Em seu novo livro (mal compreendido pelo chanceler), Zizek[8] nos avisa que não haverá um retorno às nossas vidas de antes, e as nossas vidas futuras não estão ainda prontas para sabermos como será. Só nos resta pensar sobre o futuro, aliados à ficção científica e nos fazer a pergunta sugerida pelo autor: “o que há de errado em nosso sistema atual para sermos pegos despreparados por essa catástrofe, apesar de os cientistas estarem há anos nos alertando sobre ela?” A resposta para essa pergunta, longe de necessitar de uma negação do outro, será encontrada apenas na síntese conjunta dos problemas da humanidade.

Bruno Biaso, colunista da vir-a-ser Revista Trem

[1] Publicado no Brasil pela editora Aleph;

[2] Publicado no Brasil pela editora L±

[3] Uma série original Netflix disponível na plataforma de streaming;

[4] Publicado no Brasil pela editora Intrínseca;

[5] Publicado no Brasil em um compilado de contos chamado “Realidades adaptadas” pela Editora Aleph;

[6] Série original BBC One disponível para streaming na plataforma Globoplay;

[7] Publicado no Brasil pela editora Boitempo

[8]O livro que leva o título “Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo” foi publicado no Brasil pela editora Boitempo;

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