QUARENTENADOS SONHAM COM A VOLTA PRA CASA?

Toda ficção é metáfora. Ficção científica é metáfora. O que a separa de formas mais antigas de ficção parece ser o uso de novas metáforas, tiradas de alguns grandes dominantes de nossa vida contemporânea – ciência, todas as ciências, entre elas a tecnologias e as perspectivas relativista e histórica. A viagem espacial é uma dessas metáforas; assim como a sociedade alternativa, a biologia alternativa; o futuro também. O futuro, em ficção, é uma metáfora.

Úrsula K. Le Guin, introdução do livro A mão esquerda da escuridão.

Quando ficou decidido que a adaptação que recomendaríamos essa semana seria a do livro “Andróides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, logo me coloquei a disposição para escrever um texto sobre ela. Antes de mais nada, deixo claro que essa adaptação não se encaixa de forma alguma no dizer “o livro é bem melhor do que o filme”.

O livro e a adaptação cinematográfica, que levou o nome de Blade Runner, carregam poucas similaridades. O enredo, alguns personagens, encontros e a discussão sobre o que é ser humano. Devido a essas poucas semelhanças as duas formas de arte enveredam por diferentes rizomas, brilhantes em sua própria maneira.

O enredo acontece em uma Terra que passou por uma guerra chamada Terminus, que matou a maioria da vida no planeta, tanto animal quanto vegetal. E a trama gira em volta de Rick Deckard, um blade runner, profissão que tem como objetivo aposentar andróides chamados de “replicantes”. Os replicantes são assim nomeados devido a sua aparência humanóide, e são “aposentados” pois, segundo Mercer, o profeta do mercerismo, religião presente no livro, “só matarás assassinos”. Mas não há diferença entre essa aposentadoria e a morte.

O Rick, do livro, tem como objetivo rastrear e aposentar seis replicantes do modelo Nexus-6 que fugiram da colonia de Marte para a Terra. E, seu interesse final com isso é conseguir comprar um animal de verdade para fazer companhia para sua ovelha elétrica. Vale dizer que a aquisição de um animal tem grande valor, pois a empatia com os seres vivos ganhou um novo peso após a criação dos andys, replicantes, que são detectados pela falta dessa virtude dita como exclusivamente humana. Já no filme, Deckard vai atrás de quatro replicantes e simplesmente por ser seu trabalho.

A identificação dos replicantes é feita através do teste Voight-Kampff, que leva o nome de seu criador e é baseado em várias perguntas que giram em volta de empatia. Durante o interrogatório uma câmera é apontadadiretamente para o olho do entrevistado enquanto o blade runner acompanha os reflexos ao decorrer das respostas. Definindo, assim, o interrogado como humano ou como replicante a ser aposentado.

A empresa que cria os replicantes e tem o nome, no livro, de Rosen e, nos filmes, Tyrell, é comandada por um velho extremamente malicioso chamado Eldon. Que, como um desafio, submete sua sobrinha, Rachel, ao teste Voight-Kampff, aplicado por Deckard, na primeira visita investigativa do blade runner.

O Voight-Kampff indica que Rachel é uma replicante. Com um jeito irônico, com argumentos de que a garota foi criada no espaço e que era psicologicamente definida como apática, Eldon diz que o teste errou e Rachel confirma. Quase perdendo a fé no teste, Deckard decide fazer mais uma pergunta, e através dela percebe que na verdade Rachel não sabia ser replicante, crendo ser tão humana quanto qualquer um dos dois. A partir desse ponto o blade runner entende que o tamanho do desafio que tem pela frente é maior do que imaginava.

Falando sobre a angústia do som do vazio existente em uma terra abandonada e abarrotada de poeira tóxica, a ausência de emoção quando sentimentos podem ser ajustados através de canais em um aparelho, tratando da necessidade do homem moderno em se sentir útil ou especial para se sentir feliz, escancarando a artificialidade das virtudes humanas provocada por uma repetição sem reflexão, questionando o que é ser humano quando a humanidade é um conceito tão duvidoso, trabalhando o destino e sua forma estranha de construir a literatura de cada um, “Andróides sonham com ovelhas elétricas?” foi, sem dúvidas, um dos livros mais importantes do século passado. Talvez, do milênio. E sua adaptação, que questiona se é tão importante a diferença entre o humano e o não-humano, e a empatia que quebra a barreira e coloca em cheque o que é estar vivo, seguiu os mesmos passos dando uma nova história a um enrendo fantástico.

O tempo de isolamento pode nos trazer angústias ao sermos colocados de frente com diferentes ausências e vazios que preenchíamos com a correria do dia-a-dia. Faça desse um momento de reflexão. De volta para si. Tente ficar no aqui e no agora e não se esqueça que, por mais que nos achemos sabidos, ainda estamos na aurora da humanidade.

Para finalizar, gostaria de colocar uma frase do autor, Philip K. Dick, para refletirmos sobre a tecnologia nas nossas vidas “humanas”.

Coisas vivas e não-vivas estão trocando de lugares…

Philip K. Dick, O homem duplo.

Gabriel Brenner, editor-chefe da Revista Trem

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