UMA APRESENTAÇÃO AUTOBIOGRÁFICA

No começo de Além do Bem e do Mal, Nietzsche pensa que toda filosofia é autobiográfica. Talvez toda escrita na verdade seja autobiográfica, ao menos em um sentido de que ela parte de um ponto específico da nossa espécie. Uma certa bio-grafia. Uma bio-grafia sobre algo escolhido de uma subjetividade, descrevendo o que vê e como vê tal objeto de sua escrita. Portanto, uma auto-bio-grafia. Acho que isso é acima de tudo o que busco, minha auto-bio-grafia para contar a minha história, não como me foi acometida, mas como a vejo ao meu redor.

Se em Nietzsche essa auto-bio-grafia pode ser entendida como algo mais individual, em Marx, ela é coletiva. Em 18 de Brumário, Marx diz que nós não fazemos a nossa história como queremos, afinal, tudo que está posto à nossa volta não é de nossa escolha mas foi feito por outrem, pessoas mais velhas, mais distantes ou mais mortas, e as consequências dessas ações coxeiam nossos feitios. Talvez na nossa escrita não tenha nada de plenamente auto.

Para Camus, em seu personagem Meursault, a felicidade só existiria em ter dentro de si a mesma indiferença gentil refletida no resto do mundo. O entendimento de que não há barreiras entre um indivíduo e o mundo em volta dele é uma negação, parcial ou total, daquilo que o faz único – seu corpo, a sua identidade, o seu bio. Essa negação de uma separação entre aquilo que sou eu e aquilo que não sou é algo que só pode ser descrito como absurdo na nossa realidade hiper-individual. Afinal, todos os nossos aplicativos teimam em afirmar quem somos. O absurdo de nossas vidas, só teria sentido se não fosse um fim em si mesmo, mas um começo.

No meio desse absurdo hiper-individual em que nos encontramos, Harari, no seu livro Sapiens, especula que os homo sapiens erram pela terra por pelo menos 300 mil anos, em contrapartida a escrita é usada só há 6 mil anos. Como conciliar uma existência milenar, ágrafa e comunitária com nossa experiência egocêntrica, efêmera e solitária? O que dizer sobre uma espécie que usou a escrita por tão pouco tempo mas que não consegue se reconhecer em outras formas de viver? Somos, coletivamente, neófitos na escrita.

Nossa auto-bio-grafia se mostra bem menos auto, muito menos bio, nem talvez grafia. Termino esse texto nem me apresentando, para quê afinal, se o objeto da minha escrita não sou eu mesmo? Se apenas comecei a minha autobiografia, que ela não seja somente subjetiva, absurda ou egocêntrica.

Bruno Biaso, colunista da vir-a-ser Revista Trem

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