MODERN LOVE: OS AMORES REAIS E SEUS DESENCONTROS

Ninguém fica amargurado com histórias de amor, perda e redenção

Abertura do podcast Modern Love

Um amigo, hoje, contou para mim, e todas as outras pessoas que fazem parte dos seus “melhores amigos” do instagram, que começou, tardiamente, a ler Harry Potter. Eu não costumo lembrar muito bem da minha infância, boa parte são borrões descoloridos que vagam pela minha mente. Mas, tem esse dia, no Natal, que ganhei de presente os primeiros quatro livros de Harry Potter. Estávamos na casa de minha avó, onde o Natal  sempre é intenso e rápido, pois Dona Júlia dorme cedo. Eu  não me lembro de quem recebi o pacote, mas lembro que abri no quarto. Eu dormia na beliche de cima, mas por algum motivo me sentei na cama debaixo. Rasguei o papel, joguei debaixo da cama e admirei a capa de cada livro. Lembro-me do cheiro das páginas, da textura, das cores. E foi assim, que eu abri o primeiro volume e comecei a ler.

A leitura sempre me moveu. Trouxe sensações e catarses que pareceram me preparar para a vida. Ou quase isso, já que nunca gostei de livros sobre apocalipse mas cá estou eu, mapeando a distância da minha casa até o supermercado e entitulando a tática de “Plano de Sobrevivência 2020 –  Fase 1”. A leitura moldou os meus objetivos e acabou como o primeiro motivo para várias decisões que tomei. Isso tudo seria surpreendente se não fosse meramente casual. Afinal, a leitura estava lá, e na vida, várias coisas estão lá ou, quando deixam de estar, parecem ocupar ainda mais lugar dentro de nós. E a casualidade de tudo isso fica ainda mais bonita com a nostalgia da lembrança. Exatamente sobre essa quase dicotomia entre casualidade-memória que a série Modern Love me faz pensar.

Modern Love começou como uma coluna no The New York Times, em 2004, contando histórias de amor através de relatos reais enviados por e-mail. Em 2013 a coluna chegou a receber 80.000 relatos. Em 2017 foi lançado o podcast, no spotify[1]. Já em 2019, uma série, produzida pela Amazon Prime Vídeo, teve sua estréia, além  do lançamento de um compilado de relatos em livro, no mesmo ano. Em todas as plataformas e meios de representar a vida pelo amor, temos uma leveza. A escolha da trilha sonora, a ambientação, o tom de voz dos narradores, tudo traz à tona justamente a casualidade das emoções que fazem parte de toda uma vida.

Quando escrevemos um relato autobiográfico, em primeira pessoa, indicamos que tal memória que ali transita pelas palavras tem dono, o eu. Para quem lê – o outro – a escrita em primeira pessoa, como nos primeros parágrafos deste texto, dá uma sensação de distância. Aquela memória do natal é minha, de mais ninguém. Ao mesmo tempo são abertas brechas para que o leitor encontre lacunas subjetivas, interpretações que adentram o espaço do desconhecido deixado pelo narrador. James Wood chama isto de “narração não confiável”.

Na série, no episódio “Me aceita como eu sou, quem quer que eu seja” a transmissão da narração não confiável aparece tanto através do elóquio da personagem, enquanto ela preenche o “quem sou eu” de um site de namoros, como na construção das cenas. Suas sensações de felicidade ou tristeza são apresentadas não apenas seguindo o curso normal da vida real – além do sorriso no rosto e roupas coloridas, quando a felicidade toma conta da personagem as cenas e os coadjuvantes começam a agir em prol dela, como em um musical. Essa estratégia de direção somando a temática do episódio, que trata sobre ser bipolar em mundo não-bipolar, deixa claro que o poder da narrativa e da construção das cenas faz parte de uma tentativa de olhar o momento pela ótica da narradora-personagem.

Assim como eu destaquei a leitura ao relembrar sobre minha vida a partir de uma memória específica, cada episódio, tanto do livro, série ou do podcast, faz a mesma coisa, e a narração não confiável carrega tanto a intensidade dos acontecimentos quanto a casualidade que estes são contados. Por isso, quando ouvimos o podcast, principalmente, a catarse é recorrente. Nos identificamos, não com a história idêntica, afinal o eu está ali para tomar para si aquela experiência – mas é o desenrolar emotivo que faz com que cheguemos ao “eu também senti isso”. Uma vez que todos nós já amamos, perdemos alguém, passamos por dias tenebrosos ou que beiraram a perfeição. A identificação é certeira e compartilhada com o narrador.

A amizade entre um porteiro e a moradora do prédio, um amor não superado apesar da mágoa, uma amizade que ajuda a superar doenças, um casal em crise pós-filhos-crescidos, um encontro totalmente inesperado, a relação de pessoas sonhando em contruir uma família, uma momento freudiano, e o vazio deixado pela morte. No mínimo com um destes temas nós nos identificamos em nossas vidas. Com no mínimo um desses episódios, disponíveis no Amazon Prime Video, você vai lembrar de sua trajetória. E quando digo lembrar, digo quase que fisicamente – os cheiros, as texturas, as cores, a excitação, a dor.

Paula Goulart, diretora de redação da Revista Trem

[1] E para aqueles que ficaram desejando essa experiência pelo podcast, mas estão desmotivados pelo fato de ser em inglês, deixo aqui uma opção: recentemente pude cair aos prantos ouvindo o episódio “O colecionador de vagalumes” do Gugacast, no spotify. A pegada deste podcast é um pouco mais aberta, a leitura dos relatos reais acontece com reações de outros participantes, o que nos deixa ainda mais confortáveis e sensíveis às sensações, que não precisam de definição.

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