Trilhos

Escrever para memorizar, escrever para desabafar, escrever para ajudar, espantar, solucionar, analisar, divertir, protestar, esquecer. Se a leitura possui um objetivo, a escrita também o tem. Aqui o objetivo seria me apresentar.

A Trem nasceu da vontade de viver entre livros e de fazer a diferença, nunca a enxerguei como um produto físico e ponto. Todo o projeto da Trem vem muito do coração, e não só meu mas de outras três pessoas, além daqueles vários que estão na torcida por nós. A Trem já nasce com uma certeza de sucesso, um sonho que finalmente sai do papel e estamos aqui, aprendendo, “trupicando”.

Devemos muito a todas as experiências que nos trouxeram até aqui, não acredito em força do destino, não consigo pensar que estamos destinados a algo, prefiro a liberdade do acaso. O acaso encontrou meu amor pela leitura e me levou para o primeiro FliAraxá que participei. Nesse evento pude conhecer tantos autores de perto e me sentir viva e no lugar certo. Um desses autores foi Humberto Werneck, e lá estava eu com o livro “O Desatino da Rapaziada” na mochila, não consegui me segurar e fui até ele com o livro nas mãos e pedi um autógrafo. Enquanto ele foleava as páginas até chegar na primeira trocamos poucas palavras, e foi assim que abri meu coração, disse sobre o meu sonho de viver entre livros, lendo, escrevendo. Ele assinou e disse que torceria por mim. Abri o livro e olhei seu autógrafo: “Para Paula, com a torcida e amizade 0 km do Humberto. Araxá, 29/08/2015. Meu coração transbordou, foi um dia que guardei nas memórias e pela primeira vez escrevo sobre.

A vida seguiu o rumo e a realidade me puxou de volta aos afazeres e preocupações diárias. E continuei sonhando, um pouco cada dia, para conseguir respirar e sobreviver. Outro FliAraxá se aproximava, agora já menino feito, enorme, abraçando cada vez mais pessoas e gerações. Dessa vez convidei alguns amigos, e fomos nos aventurar pelas terras araxaenses que tanto amo, meu berço materno.

Era noite, do segundo dia de festival. Tanto já havia acontecido e estávamos inspirados, motivados, andando nas nuvens. Acabava de sair de uma palestra sobre revistas literárias e pronto, vejo um dos palestrantes pedindo comida em uma das barracas. Pela segunda vez decido tomar coragem e fui até ele. Era Paulo Werneck, e eu, como uma pessoa perdida apenas lhe perguntei: como eu faço para trabalhar com livros? Quando as palavras sairam de minha boca, pensei “mas que burra, menina, que papelão”. Então Paulo abriu o coração e recebeu tal indagação com todo o entusiamos que ele tinha quando falava do que ama fazer. Nosso papo se estendeu, e trocamos figurinhas sobre educação, livros, leitura… eu e meus amigos cheios da adrenalina literária quase o deixamos zonzo. Paulo então disse que deveríamos botar o pé na porta e fazer acontecer, e que ele nos ajudaria com o dicas e ideias, um projeto de doação de livros quem sabe? “Vamos conversando”! – ele disse. E me passou seu e-mail.

Ficamos em puro êxtase e a tal dose de coragem foi triplicada e de repente estávamos trocando figurinhas com todas as pessoas que admiramos, conhecendo novas inspirações e vivendo os melhores dias que o acaso nos reservou.

Ainda tomada por aquela sensação de estar no lugar certo, enviei um e-mail para Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um, e ele nos convidou a conhecer a redação. Parecia algo distante mas o acaso não estava de brincadeira. A oportunidade de ir para São Paulo surgiu, acompanhar meu pai em negócios profissionais, e lá fui eu. Andei pela cidade, fui até o endereço da redação, e eu acho que nunca fiquei tão ansiosa e agitada em toda a minha vida. Eu entrei em uma sala enorme, simples. Várias estantes de livro, um filtro de água, uma máquina de café, duas mesas. Os livros não obedeciam regras de espaço, dominavam as estantes, mesas, cadeiras, se apoderavam do chão. A Janela era enorme, todos me receberam com um sorriso e eu sorria de volta, sem conseguir dizer muita coisa, aguardando para ouvir e aprender tudo sobre todos. Acompanhei uma reunião de pauta, e era isso. Eu estava no lugar certo. Finalmente, era isso!

Paulo Werneck e toda a sua equipe e da Editora Ubu, que divide o espaço com a revista, me receberam com todo o carinho que eu nunca imaginara. Afinal, quem é essa intrusa que vem aqui e decide participar de tudo isso? Combinamos de continuar conversando, e quem sabe botar um projeto de doação de livros para acontecer. Sai abarrotada de revistas, e de sonhos.

A vida se encarregou de nos dar tempo, e de nos colocar à prova – será que vocês irão conseguir dominar a parada? Conquistar o que querem? E decidimos, mudamos, adiamos, reformulamos tudo tantas vezes que, como disse, chegar até aqui é uma conquista.

Quando em São Paulo, eu levei o livro autografado para mostrar para Paulo, e falar como o mundo dá voltas, em 2015 tive a torcida de seu pai e em 2019 pude ter o apoio do filho. Mas na ansiedade, me esqueci completamente de mostrar o livro.

Hoje, quis apresentar a jornada que fez surgir a Trem. Não tive mais contato com Paulo e Humberto Werneck, e deixo esse texto aqui como um agradecimento, e também uma prestação de contas: vocês fazem parte da Trem, vocês nos ajudaram a começar isso tudo e registro aqui o compromisso de fazer acontecer tudo aquilo que conversamos.

De sua amiga 0 km.

Paula

Uberlândia, 17 de Maio de 2020.

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