Troop Zero (2020) Dir: Amber Finlayson e Katie Ellwood

Impossível não fazer uma associação imediata com Little Miss Sunshine (2006) de Michael Arndt, seja pela carismática garota que logo nos primeiros minutos ganha a tela (e os nossos corações), seja por suas botinhas vermelhas que sempre ficam pelo caminho ao longo do filme, ou ainda pela formação do grupo dos “desajustados”.

Troop Zero, dirigido por Bertie e Bert (Amber Finlayson e Katie Elwood) é produzido pela Amazon prime video e conta a história de Christmas Flint, uma garota humana, que perdeu a mãe e vive em um trailer com seu pai, um advogado falido, em Wiggly, Georgia, em 1977. O filme se movimenta a partir de um enredo no qual a garota decide montar seu próprio grupo de Birdies (uma espécie de grupo de escoteiras em uma versão atualizada – mas não tanto – do concurso de beleza que Olive participa em Little Miss Sunshine), para concorrer ao prêmio em Jamboree, que neste ano levará a voz das Birdies vencedoras para o espaço.

Sim, o filme ficciona um evento real que foi a gravação do Golden Record que viaja pelo espaço sideral àa bordo da nave Voyager, para o caso de algum alienígena querer escutar o que tínhamos a dizer em 1977. O disco foi gravado e enviado pela NASA em uma viagem infinita que já deixou o Sistema Solar. O projeto, idealizado pelo astrônomo Carl Sagan, é um disco de cobre banhado a ouro que compila uma série de sons da Terra incluindo saudações em 55 línguas (e você pode ver onde ele está aqui https://voyager.jpl.nasa.gov/mission/status/ e também ouvi-lo a partir da playlist do perfil oficial da NASA no SoundClound).

E é com esse enredo que Christmas Flint, a garota humana apaixonada pelo espaço, e que não tem muitos amigos porque faz xixi na cama, tenta formar sua família de escoteiras, com seu melhor amigo, o “menino-moça” Joseph, uma garota negra marrenta Hell-no e sua comparsa Smash, e outra garotinha apaixonada por Jesus, e que tem apenas um olho, Anne Claire. E se isso não é motivo suficiente para assistir Troop Zero, você pode contar com a atuação de Viola Davis e Allison Janney (que interpreta a grande diretora vilã da saga). Além disso, uma trilha sonora com Areta Franklin, Elvis Presley, George Baker Selection e… David Bowie.

[SPOILER] Raça, classe, gênero e… muito Bowie

O filme da Amazon Prime foi recebido pela crítica sem grande alarde e como apenas mais um filme para passar uma tarde divertida de sábado. Mas a comédia infantil traz, de maneira não tão sutil, diversas questões que podem ser pensadas a partir das discussões de raça e classe, e, além disso, dialoga com uma série de filmes recentes que tem colocado meninas como protagonistas, buscando desconstruir a imagem da menina recatada ideal.

Troop Zero, foge do cenário do concurso de beleza, mas atravessa as mesmas questões debatidas em Little Miss Sunshine, o que fica evidente se lembramos, por exemplo, do hino das Birdies escoteiras: Somos lindas e amorosas para o bem da humanidade…”

Ou mesmo a partir da fala da Diretora Massey Malvada (Allison Janney): “Ser uma mulher de conteúdo nunca é fácil. Não é concurso de beleza para ficar bonita para os meninos.  Não é para parir bezerros e voltar para casa. Antes de cuidarem dos seus bebês, antes de cuidarem dos maridos, dos pais na velhice e quem mais precisar, vocês cuidam da sua tropa.”

Embora a diretora frise que não é um concurso de beleza, mas uma experiência para criar mulheres fortes, o elemento referencial ainda é o cuidado com a casa, os pais, maridos e filhos. Troop Zero ainda se mostra a partir de um ponto de vista narrativo fundamental: é pela voz de Christmas Flint (Mckenna Grace) que conhecemos todos os personagens, ou seja, a partir do ponto de vista de uma criança, nos aproximamos dos personagens da história. E é por ela que, para além de outros indícios fundamentais de classe que aparecem no filme – a família e os amigos moram em trailers próximos da cidade, Dwayne (Mike Epps) é um amigo da família que está na condicional, o pai (Jim Gaffigan) é um advogado falido e a Srta. Rayleen trabalha com ele ao invés de cursar direito -, temos um primeiro ponto de vista da personagem interpretada por Allison Janney: “Cuidado com a diretora Massey Malvada. Ela cresceu vizinha da Srta. Rayleen, mas finge ser melhor que os outros.”

Aliás, a personagem, alcoólatra, é uma das peças fundamentais do filme. Massey, quando suas Birdies prendem Christmas em um armário e cortam o seu cabelo diz: “Vou dizer uma coisa, querida. Quando somos colocados no armário, de uma forma ou de outra, nós nos colocamos lá. Entende?”.

As frases, ditas de maneira sutil, são os pontos altos do filme para um espectador atento. É como conhecemos por exemplo a Srta. Rayleen (Viola Davis), quando diz à Flint que ela está apenas preparando o terreno para ser mais magoada, ou quando fala, “Para que um teste que ensina vocês a confiarem? Acordem para a realidade.”

A personagem, no entanto, vai se desenvolvendo aos poucos graças à pressão de Christmas, como no diálogo logo após elas quase serem obrigadas a desistir do concurso:

Srta. R: – Se chegarem ao Jamboree, o que não vai rolar, vocês não vão vencer. Eu sinto muito, mas queria que alguém tivesse me contado.

Chr: –  Essa é a versão B de nós mesmos, porque ninguém nunca nos mostrou como melhorar. Mostre-nos. Faça isso por nós, por favor.

Srta. R: – Ninguém fez por mim.

Chr: – Agora pode ser diferente.

Srta. R: – Nunca será diferente. Sua vida sempre será a mesma coisa. Quanto mais cedo entender isso, melhor.

Chr: – Não pode ser verdade, eu morreria.

O que move o filme e realiza a aproximação de todos os personagens, inclusive ao final, com Massey Malvada, é o ímpeto de Christmas em não aceitar. Apenas uma coisa está posta para ela, a morte de sua mãe, com isso ela escolhe viver e também torcer para que os astros ou os alienígenas possam escutá-la.

O longa-metragem começa com uma câmera que se descoloca por planetas do Sistema Solar até chegar à Terra (seria a perspectiva de uma sonda espacial? Aliens? Um meteoro?) – depois acompanha um meteoro que é visto por Christmans deitada em um deque: “No verão passado, ganhei essa lanterna da mamãe para sinalizar os alienígenas. Ela disse: ‘Claro que há vida no espaço. Vá brincar.’ Agora restam apenas eu e vocês, os alienígenas do universo. Se estiverem me ouvindo, eu sou Crhistimas Flint, uma garota humana. Acho que gostariam de mim. Acho que seríamos amigos.”

Comumente a perspectiva interestelar é utilizada para nos lembrarmos da pequenez humana. Quase sempre, olhar para o céu noturno nos lembra da imensidão do universo e da nossa insignificância diante de acontecimentos que sequer podemos perceber a olho nu. No caso de Flint, o deque decorado com souvenires, rádios, conchas, desenhos do espaço e livros do sistema solar, mais que uma lembrança solitária, é uma busca por contato. “Mamãe acreditava que as ondas sonoras viajavam no espaço. Se eu me sentisse sozinha era só enviar uma mensagem.”

Outro personagem bastante importante e que tem sua sexualidade diversas vezes tensionada ao longo do filme, é Joseph. O menino é uma espécie de David Bowie mirim. Não à toa, Bowie é a música escolhida para a apresentação e a música que as novas Birdies dançam ao redor de uma fogueira quando são deixados sozinhos na floresta.

Quando somos apresentados a ele, Joseph atrapalhadamente treina futebol com seu pai, enquanto Christmas assiste e narra: “Queria dizer ao Joseph que a vida melhora para as pessoas como nós, as crianças sem mãe, os meninos-moça e aquelas acusadas de molhar a cama. Talvez seja preciso mentir.” Da escada do trailer a Srta. Rayleen grita: – “Joseph, estive observando você. Você vai ter que aprender a correr.” Outra frase “sutil” dita pela personagem e que referencia a provável violência que o “menino-moça” sofrerá ao longo da vida. Ou outra, ainda mais incisiva, quando o personagem, para ganhar uma medalha de Birdie arruma cabelos de pessoas do povoado: – “Filho, sobreviva por mais 9 anos e você vai ganhar um monte de dinheiro.”

A referência a Bowie não é aleatória. O artista, cuja interlocução no filme se dá a partir de seu personagem Ziggy Stardust, o alienígena que caiu na Terra e montou uma banda de rock (cuja imagem mais clássica é a do raio vermelho cortando o rosto), tinha uma filosofia bem pessoal: “seja você mesmo, seja lá o que isso for”. A cena final da apresentação traz como trilha Space Oddity, a famosa música de contato com o Major Tom.

Talvez não exista vida em Marte, mas o filme ajuda os mais velhos a lembrarem que porventura o futuro só possa ser salvo pelas crianças. A mensagem final é de uma criança que deseja ser perpétua, mas que espera, acima de tudo, que os alienígenas tenham amigos como os dela, e que apreciem o seu valor. E, se você assistiu ao filme, e não sentiu ao menos um quentinho no coração, pode ter certeza, tal como a diretora Massey Malvada, você está morto por dentro.

Suelen Caldas de Sousa Simião

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